Pois... tinha eu dito que nunca seria motard, talvez pela covardia
inerente ao que penso ser o domínio do Homem (neste caso mulher / eu)
sobre a máquina.
Entusiasmei-me.
Sendo pouco mais que uma bicicleta,
aventurei-me por esse mundo fora que é a minha rua...
Entendi a
sensação de liberdade que é poder levar com um cisco ou um bicho nos
olhos...
Nunca sei se me perdi nas palavras, se fui eu que fiz esta afirmação ou se fui copiada por antecedência. A verdade é que os olhos que fito são a parcela mais importante da minha aproximação aos demais. Descobri ou redescobri a sua importância a semana passada. Teimosamente, um cisco tornou-me vulnerável. O que mais me afligiu foi o temor de um dia me serem fechadas as MINHAS janelas da MINHA alma...será que afinal existe algo que seja de facto só MEU?
Ás vezes permaneço absorta, em busca de explicações para explicar o inexplicável.
O ser humano julga-se o ser supremo, o criador da evolução e o senhor da modernidade. Sente-se portanto superior.
Gostava de entender como é possível não respeitar a dignidade dos outros seres vivos, como é possível magoar ou matar aqueles que nos acompanham e nos dão GRATUITAMENTE o seu afecto: os animais que levamos para casa, que acolhemos ou os de que nos servimos para melhorar a nossa vida... e pensando nisso vem a lágrima teimosa e inconveniente, salpicar-me o rosto de todos os dias.
Antes de ontem morreu mais um dos bichinhos que me acompanham quotidianamente. Tenho a certeza de que gostava de mim. Gostava de ficar na minha mão a receber mimos e respondia sempre ao meu chamado. Menos antes de ontem...
Era um rato fêmea. O meu rato. O rato que a minha família acarinhou. Tenho pena, muita pena dela. Tenho saudade e a saudade é o mais doloroso de todos os sentimentos...
Hoje fui ver pela primeira vez, o José Cid ao vivo (e a cores). Lembro-me de não o apreciar no auge da sua carreira, ou seja, na minha juventude. Naquela época eu gostava era do Zeca Afonso, do Sérgio Godinho e do Fausto. Gostava de canções de intervenção. Tudo que fosse popular, que entrasse facilmente no ouvido do povo, não entrava no meu coração.
Ouvia Joan Baez, Queen, Pink Floyd, Lene Lovich, Kate Bush, Melani Safka, Pink Floyd, Dire Straits, Scorpions, Nina Hagen, Bob Dylan, Peter Gabriel, Marillion.
Tentava descobrir novas vozes nos discos de vinil dos meus amigos. A musica era uma espécie de álibi para sufragar as coisas más dos dias menos bons.
Hoje fui ver o concerto das festas da cidade, cujo cabeça de cartaz é José Cid, nome artístico deJosé Albano Salter Cid Ferreira Tavares, nascido na Chamusca em 1942.
A ideia era ficar uma ou duas canções... mas fui ficando e...gostando. Surpreendentemente eu sabia todas as letras e com facilidade acompanhei o cantor, trauteando baixinho cada melodia. Fez um espectáculo leve, apresentou outros talentos que o acompanham, fez um dueto com José Perdigão...
O tempo passa por nós ou nós por ele...há quem creia que o tempo é sempre o mesmo. Sofremos metamorfoses com o avançar da idade.
Gostei do concerto. Dei conta de que o José merece todo o meu respeito pela tenacidade, por continuar a compor, enfim, por me ter feito recordar coisas. Esta é a forma de lhe agradecer.
Tenho estado calada, deixando apenas que um colóquio se vá desenvolvendo no silêncio dos meus pensamentos.
Têm partido seres únicos que inevitavelmente são insubstituíveis. Procuramos em vão "sósias" que possam continuar a dar o que recebemos desses seres especiais.
Deixou-nos há poucos dias o Professor José Hermano Saraiva. Sui generis, único na sua capacidade de nos contar estórias da História, prendia-nos de tal forma que sentíamos vontade de ficar ali...
Ás vezes vagueio na Internet em busca de qualquer coisa que me prenda uns segundos e me deixe fazer parte de outros sentires. Descobri este menino, com cinco aninhos e achei maravilhoso.
Que diria o nosso saudoso Professor se o tivesse ouvido?
Hoje fui a Santiago de Compostela. Não usei os caminhos correctos, aqueles trilhados por gente de fé, feitos levando o corpo sobre os pés. Fui de carro e o que é pior é que fui pela autoestrada.
A
cidade carece de informação que nos permita chegar à catedral. É uma
cidade limpa e hoje estava particularmente cheia de luz...mas... não
conseguia chegar ao meu destino. Bastantes pedidos de informação depois,
lá consegui uma aproximação do lugar. Nuestros hermanos não nos
entendem, também não percebo porque razão, uma vez que o galego é
similar ao português. Adiante.
Uma
vez no santuário fiz a minha visita, respeitando os trâmites da
tradição: abraçar o santo pelas costas.
Fascinante a magnitude
arquitectónica! Reza a história que o início da sua construção
aconteceu por volta de 1075 o que nos deixa perplexos dada a fraca
capacidade tecnológica da época...
Tudo isto se esbateu na minha
mente com o que me aconteceu à saída: estava um jovem plantado no meio
da escada a pedir (pasmem) abraços...
" Dame un abrazo que no te pido
dinero".
Sem pensar duas vezes, instintivamente, abracei o estranho... nem
me passou pela cabeça que me poderia agredir, roubar ou infectar com
uma doença qualquer.
Porque estaria a fazer aquela coisa estranha que é pedir abraços na
escada de uma catedral? Também lá estava uma senhora a pedir esmola, com
a boca repleta de dentes de ouro...mas isso não me pareceu estranho!
Estranho é pedir abraços.... quando me afastei fiquei a observar o
rapaz...coitado, ninguém o abraçava...